Experimento com crianças em UTI mostra que a leitura em voz alta reduz o estresse e aumenta os níveis de hormônio da felicidade

Ler para crianças estimula o hábito da leitura, melhora a cognição e aumenta o vocabulário dos pequenos. E não só. Uma pesquisa conduzida por pesquisadores brasileiros, incluindo um pesquisador da Rede CpE, mostra que a leitura de histórias para crianças pode inclusive aliviar dores naquelas que estão doentes.

O experimento acompanhou 81 crianças entre dois e sete anos que estavam em cuidados intensivos para asma, bronquite ou pneumonia na UTI do Hospital São Luiz Jabaquara, em São Paulo. Os pesquisadores dividiram aos pequenos em dois grupos, um que ouvia histórias lidas em voz alta por um voluntário da “Associação Viva e Deixe Viver” por meia hora ao dia, e outro que apenas participava de atividades de adivinhação, do tipo “o que é, o que é”.

Para medir as reações do organismo das crianças às atividades, os pesquisadores coletaram amostras de saliva delas um minuto antes e logo após as sessões de histórias ou adivinhas. As crianças também responderam questionários sobre as dores que sentiam antes e depois das intervenções.

Ao final do experimento, as crianças que participaram da contação de histórias se mostraram mais tranquilas, expressaram sentir menos dor e passaram a encarar o tratamento de maneira mais positiva. Os efeitos benéficos da leitura apareceram não só no comportamento, mas nos próprios hormônios detectados na saliva pequenos. As crianças que ouviram histórias produziram em média duas vezes mais ocitocina que as crianças no grupo das adivinhações, de acordo com a pesquisa publicada na revista científica PNAS. A ocitocina é um hormônio ligado à felicidade e ao prazer e liberado pelo nosso organismo em atividades e situações de acolhimento. O grupo que ouviu a leitura dos livros também teve uma redução mais intensa dos níveis de cortisol, um dos principais hormônios do estresse.

“Talvez seja a primeira evidência direta de algo que, do ponto de vista anedótico, tem sido visto em hospitais do mundo todo faz algumas décadas, já que muita gente relata esses benefícios”, contou ao jornal Folha de São Paulo o coordenador do estudo e pesquisador da Rede CpE Guilherme Brockington, da Universidade Federal do ABC.

O pesquisador acredita que os resultados obtidos no hospital podem se traduzir para o dia a dia em casa também, especialmente no isolamento causado pela pandemia. “Queremos incentivar os pais a adotarem com mais frequência essa atividade com os filhos”, ele disse. “A situação da pandemia guarda semelhanças com a vida na UTI, com isolamento, tédio e mesmo incerteza em relação à morte. A leitura de histórias cria um vínculo emocional capaz de minimizar tudo isso.”​

Sobre o Autor

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Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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